
Um novo estudo científico publicado em revista internacional de conservação analisou a abundância e a biomassa de espécies-presas da onça-pintada em diferentes áreas protegidas da Mata Atlântica. Os resultados mostram um padrão consistente: áreas com maior disponibilidade de presas, especialmente de médio e grande porte, são também aquelas onde a onça-pintada ainda persiste.
- Onde a base de presas é muito reduzida, as populações de onça-pintada tendem a ser ausentes ou extremamente pequenas.
- Onde as presas se mantêm em maior abundância, as onças encontram melhores condições para persistir.
A pesquisa foi liderada pela Dra. Katia Ferraz, do Laboratório de Ecologia, Manejo e Conservação de Fauna Silvestre (LEMaC), vinculado ao Departamento de Ciências Florestais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – Esalq/USP, e contou com a colaboração de pesquisadores das seguintes instituições:
- Laboratório de Ecologia e Conservação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, campus de Ribeirão Preto
- Instituto de Pesquisas Cananéia (IPeC)
- Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)
- Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT)
- Projeto Onças do Iguaçu – Instituto Pró Carnívoros
O trabalho reúne pesquisadores vinculados a universidades, centros de pesquisa, órgãos governamentais e organizações da sociedade civil, refletindo um esforço colaborativo e multidisciplinar voltado à conservação da onça-pintada e de seus habitats.
Uma pergunta científica que levou anos para ser respondida
A motivação para a realização deste estudo surgiu em 2013, durante uma oficina de trabalho do Plano de Ação Nacional para Conservação da Onça-Pintada, organizada pelo CENAP/ICMBio, quando foi levantada a hipótese de que o declínio da onça-pintada na Mata Atlântica poderia estar diretamente relacionado ao declínio de sua base de presas. Naquele momento, porém, não existiam estimativas robustas e padronizadas que permitissem testar essa hipótese de forma quantitativa.
Para suprir essa lacuna de conhecimento, pesquisadores de diferentes instituições passaram a estruturar estudos integrados ao longo dos anos, apoiados por agências de fomento como a FAPESP, a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, entre outras organizações nacionais e internacionais. Esse esforço coletivo culminou no artigo agora publicado.
O esforço por trás dos dados
O estudo foi desenvolvido ao longo de oito anos, envolvendo quatro projetos financiados, dezenas de pesquisadores, técnicos, estudantes e gestores de áreas protegidas, além de um grande esforço logístico para a realização de coletas de dados em campo em diferentes regiões da Mata Atlântica. Este estudo representa o maior esforço de coleta sistematizada para estimativa de base de presas já realizado para a Mata Atlântica.
A pesquisa combinou uma revisão sistemática da dieta da onça-pintada no Brasil com levantamentos padronizados por armadilhas fotográficas em nove áreas protegidas, permitindo estimar a abundância e a biomassa de espécies-chave de presas.
Os resultados são consistentes e claros:
- onde há baixa abundância de presas, as onças desaparecem;
- onde as populações de presas se mantêm, as onças persistem.
O destaque do Parque Nacional do Iguaçu
Entre as áreas avaliadas, o Parque Nacional do Iguaçu se destacou como um dos últimos locais da Mata Atlântica onde populações de predadores e presas ainda se mantêm em níveis relativamente altos. O parque apresentou os maiores valores de abundância e biomassa de presas, sustentando uma população residente e viável de onças-pintadas.
Pressão humana como principal ameaça
O estudo também reforça que proteger apenas a floresta não é suficiente. A disponibilidade de presas foi menor em áreas com maior presença humana, incluindo acesso facilitado para a prática da caça ilegal, mesmo dentro das áreas protegidas.
Os resultados revelam uma situação alarmante de baixa abundância de espécies-chave para a onça-pintada, como os porcos-do-mato e os cervídeos, em grande parte das áreas protegidas avaliadas. Essas populações sofrem forte pressão de caça e estão reduzidas a níveis que provavelmente não sustentam populações viáveis de onças-pintadas.
Implicações para a conservação
Para reverter o declínio da onça-pintada e de suas presas na Mata Atlântica, o estudo aponta a necessidade de uma abordagem integrada, que incorpore dimensões ecológicas e sociais, incluindo:
- proteção efetiva das presas onde ainda persistem;
- restauração de populações de presas em áreas criticamente defaunadas;
- controle da caça e do acesso ilegal dentro e fora de áreas protegidas;
- fortalecimento da conectividade entre áreas protegidas;
- engajamento das comunidades do entorno.
Sem ações desse tipo, a recuperação e a manutenção da onça-pintada em grande parte da Mata Atlântica permanecem altamente improváveis, com impactos diretos sobre o equilíbrio ecológico do bioma.
Link para o artigo: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2351989426000338
Referência do artigo: Ferraz, K. M. P. M. B., Paolino, R. M., Fusco-Costa, R., Sampaio, R., de Almeida, A. B., Bogoni, J. A., Foster, V., Barros, Y., Chiarello, A. G. 2026. The loss of prey base may drive the jaguar (Panthera onca) toward extinction in the Atlantic Forest of South America. Global Ecology and Conservation, e04084.